sábado, 21 de junho de 2008

Educação com firmeza e afeto

Só assim nossos filhos vão nos respeitar e entender que estamos cuidando deles
Áurea Lopes

Cada vez mais questionadoras e independentes, as crianças conquistam seus espaços e constroem suas identidades por meio de um exercício constante, que exige preparo (e fôlego) dos pais: o reconhecimento dos seus limites. Diariamente, seja em que idade for, eles testam as suas fronteiras - e a nossa paciência. Não aceitam regras facilmente, resistem às tarefas, fazem exigências... Cabe a nós, pais, educadores, indicar as alternativas que vão permitir a eles um crescimento saudável.
A psicóloga Maria Tereza Maldonado ensina: "Limites bem colocados ajudam a criança a tolerar frustrações." No entanto, para se fazer obedecer e ouvir, os pais não precisam usar a força ou recorrer a atitudes autoritárias e repressivas. A mensagem eficaz, diz ela, "combina palavras, expressões corporais e atos".
Os pais, em geral, têm clareza sobre a necessidade de colocar limites para os filhos? Sabem quais são os limites que devem ser colocados e em quais circunstâncias?
A maioria dos pais sente dificuldade em encontrar a medida certa: por medo de ser autoritários, deixam de exercer a autoridade. Como diz o conhecido ditado inglês: "Não se deve jogar fora o bebê junto com a água do banho." O autoritarismo tem efeitos nocivos sobre a formação da personalidade da criança, mas a permissividade é ainda pior. A criança pequena funciona pela lei do desejo: quero agora! Não tem controle sobre a impulsividade e, por isso, tem verdadeiros ataques quando frustrada. Se fica com raiva, grita e agride com tapas, mordidas e pontapés. A principal função dos limites é possibilitar a construção desse controle da impulsividade para que a criança, gradualmente, aprenda a viver dentro da lei da realidade: nem sempre acontece o que ela quer, na hora em que ela deseja. Os limites bem colocados ajudam a criança a aprender a esperar, a tolerar frustrações, a criar alternativas aceitáveis de expressão da raiva e a perceber que os outros também têm necessidades e desejos que precisam ser levados em consideração.
Os pais têm a firmeza necessária com os filhos?

A fórmula eficaz - porém, nem sempre fácil de aplicar - é combinar firmeza, serenidade e consistência. Não adiante colocar limites em um dia e, no dia seguinte, porque está cansado, deixar a criança fazer o que quer. Há pais que acham que, gritando ou batendo, estão sendo firmes. Ao contrário: as crianças percebem que, desse modo, os pais estão descontrolados e, portanto, pouco firmes. Outra coisa importante: a mensagem eficaz combina palavras, expressões corporais e atos. Não adianta colocar um limite importante com a voz fraquinha ou fingir que não vê quando a criança desrespeita o combinado. Quando o que é dito está em contradição com os atos, a criança passa a não levar a sério os limites colocados. E é muito ruim perder a credibilidade da palavra.

Uma "palmadinha no bumbum" é permitida para educar?
Veja, na escola, as professoras precisam utilizar suas habilidades de comunicação para que as crianças façam o que precisa ser feito, sem castigos físicos. Por que, em casa, seria diferente? Não existem "palmadas educativas". Educar dá trabalho. Exige firmeza, persistência e, sobretudo, muito amor. Apelar para gritos e tapas para se fazer obedecer gera uma escalada de agressividade. O convívio familiar se deteriora. Em alguns casos, entra-se numa dinâmica crescente de violência que chega a excessos - dos quais os pais acabam até se arrependendo. O melhor é armar-se de paciência e não entrar nas provocações das crianças.

Quais os principais motivos da dificuldade ou até da incapacidade de colocar limites?
Diversas situações e temores impedem os pais de ter atitudes mais firmes na educação dos filhos. Por exemplo, quando os pais tiveram uma educação autoritária, têm receio de repetir esse padrão com o filho e se perdem na hora de demonstrar autoridade. Ou quando se sentem culpados por trabalhar muito, ou por ter se separado, e querem "indenizar" o filho pelo que julgam ser sua falta. Outra situação comum é quando um genitor quer compensar a severidade do outro e "passa a mão na cabeça" da criança, encobrindo seu mau comportamento. Também dificultam a colocação de limites os sentimentos de pena e a superproteção - porque a criança nasceu com problemas ou foi adotada. Muitos pais simplesmente não conseguem ser diferentes porque não sabem como, isto é, por uma noção errônea do que é ser bom pai ou boa mãe. Pensam que é bondade fazer tudo o que a criança quer.

Ainda existe o entendimento de que o não traumatiza?
Herança das experiências liberais da década de 60, essa é uma das maiores distorções que o uso popular fez das teorias psicológicas. Com receio de ser castradores, repressivos, muitos pais tornaram-se permissivos. Porém, precisamos ver que entre o autoritarismo e a permissividade há um meio-termo. Existem algumas questões em que as crianças e os pais podem chegar juntos a soluções de impasses e conflitos. Porém, existem também questões "inegociáveis", em que não é não. E ponto final. Fica mais fácil fazer isso se os pais compreenderem que colocar limites com firmeza e serenidade é uma expressão de amor e de cuidado.

Como se dá a questão dos limites em famílias mais conservadoras ou mais liberais?
As famílias conservadoras tendem a adotar a postura autoritária, com excesso de limites, proibições e castigos para "enquadrar" as crianças nos moldes considerados corretos, com muita preocupação com "o que os outros vão pensar". As famílias liberais tendem a confundir limites com repressão e "liberdade de expressão" com grosseria e indelicadeza. A deficiência dos limites, nas famílias liberais, costuma resultar em sensação de insegurança e abandono em crianças e adolescentes.

De que tipo de limites as crianças de hoje mais necessitam?
Os que as ajudam a controlar a impulsividade, condição necessária para se relacionar com os outros e aceitar as "leis do bom convívio" - respeito, consideração, gentileza, cooperação, solidariedade. Um comportamento característico dos tempos atuais que requer limites é o consumismo - gerado pelo bombardeio dos meios de comunicação sobre o público infanto-juvenil. Estimulada pela propaganda, a criança pede um brinquedo que em poucos dias será esquecido no armário. Logo surgirá outro brinquedo que ela também vai querer - e também vai abandonar em pouco tempo. Ou seja, o desejo passa a se concentrar naquilo que ainda não está em suas mãos, o que significa um estado interior de profunda insatisfação.

Quais os limites mais difíceis de impor e como vencer as dificuldades?
Entre os mais trabalhosos, estão os que se referem ao equilíbrio entre os deveres e os prazeres, como fazer a criança sair da frente da televisão ou do computador para dormir ou estudar. Nos primeiros anos de vida, a criança resiste bravamente quando sua brincadeira é interrompida porque está na hora de tomar banho, por exemplo. As crianças maiores simplesmente ignoram os chamados e os pais precisam falar a mesma coisa inúmeras vezes. Esse é um processo muito cansativo e desgastante. Mas que pode ser bem resolvido fazendo-se acordos sobre rotinas e horários.

Outra dificuldade grande dos pais está em lidar com a agressividade dos filhos. Crianças pequenas tendem a reagir violentamente quando a raiva fica maior do que elas, pois ainda não sabem controlar esse sentimento. Adolescentes fazem da agressividade um disfarce do medo de não conseguir alcançar sua individualidade. Enfim, sentir raiva é normal. Mas existe diferença entre expressões aceitáveis e inaceitáveis da raiva. É preciso ensinar a criança a dizer do que não gosta sem ofender ou agredir os outros, a atacar os problemas sem atacar as pessoas. Bloquear as expressões inaceitáveis de raiva e descobrir alternativas aceitáveis de manifestação é a principal lei do bom convívio.

Qual a eficácia das negociações e combinados na educação da criança?
São indispensáveis. A eficácia é maior quando a criança participa da construção do combinado com suas próprias idéias. Para isso, é importante que os pais tenham a postura de estabelecer o combinado na base de "temos um problema para resolver" e que acreditem que "se a criança é parte do problema, ela é também parte da solução". Com isso, os pais estarão contribuindo para que a criança desenvolva a habilidade de resolver conflitos, a capacidade de escuta, a criatividade para construir soluções em conjunto e se responsabilizar por elas.

Como proceder quando as regras são quebradas? Punições ainda valem? Em que medida?
Não gosto da palavra castigo nem de punição porque remetem à postura autoritária. Gosto do conceito de "conseqüência", que é um componente essencial dos "combinados". Quando regras e limites são colocados e quando os "combinados" são construídos, as conseqüências precisam estar previstas e rigorosamente aplicadas quando for o caso. As conseqüências têm relação lógica com o limite ou o combinado que foi desrespeitado. Por exemplo: se ainda não fez os trabalhos escolares, não vai brincar com os amigos; se sujou, vai limpar; se espalhou os brinquedos, vai guardar, e assim por diante. Isso é essencial para a construção da autodisciplina.

Qual a parcela da escola na conscientização da criança sobre seus limites?
Família e escola são as principais "fatias do mundo" na vida da criança e se complementam na construção das habilidades fundamentais do convívio. No cotidiano da escola, há inúmeras oportunidades para resolver conflitos, aprender a aceitar as idéias dos outros e não apenas desejar impor as próprias, participar de atividades em grupo, armar consensos, respeitar as regras institucionais e praticar os valores fundamentais do convívio em coletividade.

As crianças de hoje são mais questionadoras. Isso representa mais resistência
aos limites? Pode ajudar os pais a refletir sobre eventuais atitudes autoritárias?
Uma das boas coisas da superação da postura autoritária - "criança não dá palpite", "é de pequenino que se torce o pepino" - foi reconhecer o direito da criança a ter voz e vez. Sem cair no exagero de colocá-la no centro do mundo, como se fosse um rei com os adultos da família como súditos. A educação dos filhos é uma oportunidade maravilhosa de crescimento para os pais. A postura questionadora da criança - não confundir com postura desrespeitosamente desafiadora e compulsivamente oposicionista - reflete o desenvolvimento do espírito crítico, da liberdade de pensar e de contribuir com sua própria visão sobre a situação. Isso traz possibilidades muito ricas de construção de consenso e de "combinados", com as respectivas conseqüências.

Pais que trabalham fora de casa e deixam seus filhos aos cuidados de outras pessoas - parentes, empregados - têm mais dificuldade em estabelecer limites?
Sim, porque precisam construir uma parceria eficiente com esses colaboradores.

Que conseqüências poderá ter, na vida adulta, uma criança que cresce com deficiência na questão dos limites?
São muitas e, lamentavelmente, deixam lacunas importantes no desenvolvimento da inteligência de relacionamento e na inteligência emocional. Com isso, a tendência é apresentar grandes dificuldades de convívio na equipe escolar e, futuramente, nas equipes de trabalho. As principais conseqüências são: falta de controle da impulsividade (do desejo e da raiva); pouca tolerância à frustração; dificuldade de esperar e de ter persistência para superar obstáculos; tirania, egocentrismo, dificuldade para perceber desejos e necessidades dos outros; distúrbios de comportamento (teste de limites); sentimentos de vazio e de insatisfação.

Maria Tereza Maldonado é mestre em psicologia pela PUC-Rio, onde lecionou no Departamento de Psicologia; membro da American Family Therapy Academy; autora de mais de 20 livros, entre os quais Cá entre nós - na intimidade das famílias (Integrare Editora). http://www.mtmaldonado.com.br/