domingo, 29 de junho de 2008

2.1. HIPÓTESE NA CONSTRUÇÃO DA ESCRITA

Segundo COLELLO (1995, p.27) o processo de construção da língua escrita é, na verdade, muito mais complexo do que supõem os educadores que insistem em ensinar o abecedário, as famílias silábicas e a associação de letras para a composição de palavras, sentenças e textos. A capacidade de ler e escrever não depende exclusivamente da habilidade do sujeito em "somar pedaços de escrita", mas, antes disso, de compreender como funciona a estrutura da língua e o modo como é usada em nossa sociedade.
As pesquisas de FERREIRO e TEBEROSKY (1986), citado por COLELLO (1995, p.27), buscaram descrever e classificar as sucessivas etapas de produção da escrita, tentando compreender o motor que impulsiona esse processo de aprendizagem. Suas conclusões apontam quatro momentos básicos pelos quais passam a maioria das crianças, independentemente do processo de escolarização:

I) A escrita pré-sílabica é produzida por crianças que ainda não compreenderam o caráter fonético do sistema. Ela pode aparecer das seguintes formas (COLELLO, 1995, p.27):
Escrita unigráfica: reflete uma concepção elementar da escrita porque: ela é mais ou menos semelhante na representação de diferentes palavras ou textos (sem diferenciação interfigural); é impossível de ser analisada nos seus elementos constitutivos (letras, ou sílabas). Contudo, essa forma de escrever demonstra que a criança compreendeu o caráter arbitrário do traçado gráfico: o desenho de um gato, por pior que seja, deve guardar alguma semelhança com o animal; a inscrição desse termo está livre do compromisso de fidelidade figurativa. Nesse caso, pode-se dizer que a criança descobriu a possibilidade de representar um gato buscando um recurso não icônico (COLELLO, 1995, p.27).
Escrita com letras inventadas: como a criança não conhece as letras convencionais, ela "cria o seu próprio sistema de escrita" cujas partes não têm relação com o valor sonoro do que pretendeu representar. Esse tipo de escrita pode aparecer com ou sem variação inter ou intrafigural (COLELLO, 1995, p.28).
Escrita com letras convencionais, mas sem valor sonoro convencional: pode aparecer com ou sem variação figural (COLELLO, 1995, p. 27 e 28).

II) A escrita silábica representa um considerável avanço porque, nessa fase, a criança compreendeu que o sistema é uma representação da fala. Na tentativa de fazer corresponder "partes da fala" com "partes da escrita", ela faz valer uma letra para cada sílaba. Tal como a escrita pré-silábica, as variações da escrita silábica podem ocorrer pela presença de letras convencionais ou inventadas, usadas com ou sem valor fonético convencional (COLELLO, 1995, p.28).

III) A escrita silábica-alfabética é marcada por um momento de transição, no qual o indivíduo já percebeu a ineficácia do sistema silábico, mas ainda não domina o sistema alfabético. Na tentativa de acrescentar letras, ela acaba usando, numa mesma palavra, os dois critérios, podendo aproximar-se mais do silábico ou do alfabético. O resultado disso é uma escrita aparentemente caótica, nem sempre inteligível (COLELLO, 1995, p.28).

IV) Quando a criança conquista a escrita alfabética, compreendendo o valor sonoro de cada letra, ela pode ainda estar distante da escrita convencional, na medida em que não domine as regras e as particularidades do nosso sistema. Se considerarmos a ortografia, a pontuação, a acentuação, a divisão do texto em partes (palavras e parágrafos) entre tantas outras particularidades da escrita, pode haver ainda um longo e penoso caminho a ser percorrido (COLELLO, p.28 e 29).
Conforme FERREIRO e TEBEROSKY (1986), as sucessivas hipóteses na conquista da escrita revelam, antes de tudo, o caráter essencialmente criativo da construção do saber. Por trás de cada produção "incorreta" e aparentemente aleatória, existe uma infinidade de concepções já formadas, de critérios inteligentes e de tentativas tão fecundadas que, de algum modo, promovem a evolução.