quarta-feira, 2 de abril de 2008

Aprendizagem: Dificuldades




O objetivo deste trabalho é entender como a Epistemologia Genética Piagetiana pode contribuir para a compreensão das principais causas da não aprendizagem, bem como das mais freqüentes dificuldades que podem aparecer em um aprendente.

Dentre estas dificuldades podemos ressaltar a questão do ensino insuficiente, por vários motivos, de acordo com as necessidades de cada aprendente; bem como, avaliar se a metodologia comumente aplicada ao ensino está compatível ao que se espera de um ensinante.

Como ponto de apoio, teremos algumas conceitualizações sobre as contribuições da Psicanálise para o estudo das causas da não aprendizagem, uma vez que esta é uma ciência que permite compreender a subjetividade, por excelência, do ser humano.

Não podemos deixar de mencionar o papel que o erro, do ponto de vista construtivista, tem neste processo de ensinar-aprender.

Quais seriam as diferenças entre Aprendizagem e Desenvolvimento?

Aprendizagem: Conhecimento adquirido e internalizado; Mais da ordem do social; Fruto da interação do sujeito com o meio; Adquirido e socializado; Desenvolvimento intelectual depende do potencial do indivíduo; Acontece de acordo com uma ação espontânea ou estimulada.

Desenvolvimento: Processo em que o indivíduo constrói seu conhecimento; Construção e desenvolvimento das estruturas internas; Formação das estruturas; Processo natural dentro das possibilidades e limites do indivíduo; Independente do aprendizado formal; Natural, intuitivo; Desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo, moral etc.

Para Piaget, aprendizagem está relacionada com a experiência e pode ser compreendida em dois sentidos:

- strictu sensu – sentido restrito, em função da experiência, ao tentar realizar alguma coisa.

- lato sensu – sentido amplo – se confunde com o desenvolvimento, é o sentido restrito mais o processo de equilibração; só a experiência

não basta. Está relacionado com a construção das estruturas.
Ao falar de desenvolvimento, devemos ter sempre em conta seus fatores para Piaget :

1) maturação – tempo que transcorre enquanto o organismo vai adquirindo condições para construir determinadas estruturas;

2) experiência – agir sobre o meio, experimentar, tentar transformar o meio. Neste aspecto podemos explicar os conceitos de experiência física (agir sobre os objetos - cor, textura, forma, reação ...) e experiência lógico-matemática (das ações e da coordenação – bola de madeira sobe menos que a de plástico quando jogada para cima ...);

3) social – divididas em interações sociais (com os pares ou com adultos) e transmissão social (escolar, familiar etc.);

4) equilibração – fator que coordena todos os demais.

A aprendizagem está relacionada com o conteúdo que a ação envolve.

Como a escola tem lidado com as questões das aprendizagens e do desenvolvimento?

• Ponto de vista do adulto é transmitido sem que haja preocupação com a compreensão pelo aluno;

• A apresentação desta visão acabada não dá oportunidade para que o aluno desenvolva sua autonomia;

• A escola acredita que cumpre sua missão apenas transmitindo conhecimentos para o aluno memorizar; porém o ensino assim realizado foge da realidade da vida do aluno.

• A criança deve ser desafiada, deve ser estimulada a levantar idéias e hipóteses sobre aquilo que se pretende que ela aprenda.

• O professor deve procurar conhecer seus próprios limites e tentar superá-los.

Algumas causas das Dificuldades para Aprender:

Da criança: atraso geral no desenvolvimento; estruturas de conjunto (criança que até passa de ano, mas é por mecanização); atraso no desenvolvimento de uma estrutura ou na construção do real (tempo, espaço, causalidade, linguagem).

Circunstancial: Familiar; Escolar; Social; Falta de solicitação.

Classificação das crianças com Dificuldade de Aprendizagem, por grupos:(Segundo Ramozzi-Chiarottino)

Grupo A: são as crianças mais comprometidas, desconhecem: regularidades da natureza, não possuem noção de tempo, espaço e causalidade, não agem sobre o meio e sobre os objetos, não conhecem os limites de suas ações.

Como conseqüência, estas crianças possuem uma representação de mundo caótica, retardo na aquisição da linguagem, impedimento na comunicação por problemas com a aquisição da língua materna.

Para superar as dificuldades destas crianças, seriam necessárias atividades que propiciem a construção e a coordenação de seus esquemas motores; interações com o meio; compreensão das ações; compreensão das propriedades dos objetos e percepção das regularidades da natureza.

Grupo B: crianças capazes de falar, representar e operar, mas não organizam o real, não percebem a diferença entre o real e o fantástico. Intervir com estas crianças significaria propiciar interações com o meio, experimentá-lo, agir sobre ele, relatar o que foi visto e feito, vivenciado.

Grupo C: a criança é restrita ao presente, não chega a identidade por falta de organização, não estabelece classes e séries, para a criança passar deste nível, ruma à compreensão, é necessário estruturar o real, organizar, buscar explicações para o mundo físico.

Grupo D: são as crianças que ainda não construíram as estruturas mentais esperadas nas idades em que estão. Apresentam dificuldades com relação ao real, ou seja, não se localizam no tempo e no espaço e não estabelecem relações entre causa e efeito. Vivem fora da realidade. São crianças que não apresentam distúrbios físicos ou mentais mas que apresentam dificuldades em aprender.

Aqui se pode fazer um interessante paralelo com os erros, uma vez que estes são os mais aparentes “sintomas” do não aprender.

Para Vinh-Bang, que trabalhou com os erros, as insuficiências nas produções escolares das crianças devem ser analisadas como possibilidades de se avaliar o trabalho a ser realizado, focando-o de acordo com as necessidades da criança.

Segundo este autor, os erros, e sua devida intervenção, podem ser:

Individuais: Conteúdo específico-Deve-se verificar o conteúdo.
Vários conteúdos: Deve-se verificar as estruturas ou o professor.

Coletivos: Conteúdo específico-Deve-se verificar o professor da disciplina.
Vários conteúdos: Deve-se verificar a metodologia e a forma de trabalhar.

IMPORTANTE:

No que diz respeito ao psicopedagogo, é necessário o desempenho de um papel ativo, uma tomada de posição que se baseie na “intervenção”, na detecção e na remediação do problema.

A natureza e a origem das insuficiências devem ser determinadas, coisas que geralmente escapam do professor. Esta intervenção, com base na epistemologia genética piagetiana, pressupõe assegurar o funcionamento dos instrumentos cognitivos que favorecem uma estruturação operatória e reestruturar os conhecimentos lacunares.

CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE para o estudo das Dificuldades de Aprendizagem

Duas interessantes idéias expostas nesta parte dos estudos, podem ser bem pertinentes para a abertura deste aspecto psicanalítico:

- Falar do sujeito numa perspectiva analítica, é falar no sujeito do INCONSCIENTE.

- Possuir uma deficiência é diferente de ser deficiente.

Normalmente, as crianças com dificuldades de aprendizagem são consideradas casos patológicos; porém, não é necessário ter uma patologia para ter problemas de aprendizagem. Sabemos, de acordo com a psicanálise, que a não aprendizagem, pode ser considerada um sintoma e, um sintoma, é a parte visível de um problema interno, que não é, necessariamente, uma patologia.

Segundo Piaget, neste processo de correlação entre o Fazer , o Compreender e a Tomada de Consciência, a inteligência dá a engrenagem, a afetividade dá o combustível, é a energética.

Assim, para a psicanálise:

- SABER – é da ordem do inconsciente;

- CONHECER – é da ordem cognitiva.

Dentro dos estudos para a realização deste trabalho, nos deparamos com diversos textos que se referiam a um famoso acontecimento do começo do século XIX: as desventuras do Dr. Jean Itard, no processo em que tentou, sem sucesso, educar Víctor, uma criança encontrada em estado selvagem, nos bosques de Aveyron, na França.

Entendamos, primeiramente, que esta tentativa de educação, foi baseada em trabalhos anteriores do Dr. Itard, famoso por ensinar surdos a falar. O racionalismo-empirismo, e as idéias centradas em causa-efeito, eram os pensamentos que modelavam a sociedade em que este fato do Selvagem de Aveyron aconteceu.

Tamanho foi o insucesso deste ocorrido, que Leandro de Lajonquière subintitulou um de seus textos como: “ou do que não deve ser feito na educação das crianças”. Como já foi dito, Itard não obteve sucesso em seu empenho, não conseguiu educar Víctor segundo os moldes que considerava ideais.

Deste fato, podemos extrair como reflexão para os nossos dias , a antipedagogia que vem sendo praticada nas escolas, cujos responsáveis pela educação tentam, inutilmente, fundir em uma só, as diversas pessoas e personalidades existentes em sua sala de aula. Seria, mais ou menos, como se cada aluno fosse um Víctor, que veio de um mundo próprio, específico, com seus desejos, suas vontades, seu modo de ver e sentir as coisas externas, suas necessidades, sua cultura etc.

Antes de continuarmos, um esclarecimento sobre os objetos de estudo da psicanálise e da psicologia genética:
PSICANÁLISE: O sujeito; O inconsciente; A verdade.

PSICOLOGIA GENÉTICA: O desenvolvimento da inteligência;Como o ser humano conhece.

A psicanálise vê as dificuldades de aprendizagem como sintoma.

O objetivo de um trabalho psicopedagógico, na perspectiva analítica, é resgatar a subjetividade, articulando a ordem do conhecimento e a ordem do saber, para que a pulsão de saber possa fluir.

Cabe ressaltar aqui que, retomando o que já foi dito anteriormente, pensar o sujeito na perspectiva psicanalítica, é pensar no sujeito do inconsciente, subjetivo; porém, a definição piagetiana de sujeito, refere-se ao sujeito epistêmico, universal, não subjetivo.

Idéias básicas para compreender as dificuldades para aprender: Questão do erro:
- É necessário que o educador tome uma posição diante do erro e, da postura que têm em relação a eles: Punição

Complacência

Problematização

Reconheceremos, na postura que o educador adotar, as 3 teorias psicológicas existentes na educação; se opta que o erro deve ser entendido como um fato inaceitável e necessário de ser punido, temos o empirismo-associacionismo, se o educador considerar que o erro é fruto de um acontecimento natural, que será corrigido pelo passar do tempo, temos o romantismo; se tivermos um educar com uma concepção problematizada do erro, temos o construtivismo, onde o erro não é tratado como uma questão simplesmente reduzida ao resultado da operação (se acertou os se errou), mas sim, de invenção e de descoberta.

A utilidade de estabelecermos uma teoria psicológica para o entendimento dos erros, está no fato de que, numa perspectiva psicopedagógica ou construtivista, o erro, na visão da criança, faz parte de um processo, é possível e necessário; ao passo que, numa visão pré-formista e tradicional, do ponto de vista do adulto, o erro é o contrário do acerto (aquilo que é considerado bom e verdadeiro) e, por isso, deve ser eliminado e não deixar vestígios de sua existência.

Lino de Macedo faz uma metáfora em seu texto, utilizando o termo borracha: para o adulto, as borrachas existem e são consideradas muito eficientes para a correção dos erros; no entanto, na vida não existem borrachas , a autocorreção é importante para nos dar a oportunidade de entender o que ainda não está certo.

Interessante também é o que é dito em relação às falhas da escola, onde sempre há um culpado, alguém, ou alguma coisa sobre a qual recaiam as responsabilidades.

Nosso sistema escolar está maculado por uma preocupação intensa com os resultados obtidos na escola. Por esse motivo, conscientizar que o erro deve ser avaliado como parte de um processo muito maior torna-se difícil; principalmente quando vemos, rotineiramente, nas escolas, um uso “terminal” da avaliação , que só enxerga o produto final.

Como a criança não tem consciência do próprio erro, é função do educador provocar a tomada de consciência, fazer a problematização.

CARACTERIZAÇÃO DO ERROS:

Sistemáticos (quando são/estão nas estruturas)

Funcionais (quando são da ordem do fazer)

A questão do erro enquanto observável, refere-se ao fato de tornar o erro observável para a criança. Isso pode ser entendido pela divisão que o próprio Piaget fez das respostas recebidas em suas prova operatórias (Conforme Macedo p. 71-73):

Nível I – justaposição; aqui não há erro, porque ele é recalcado pela criança, ela sabe apenas no nível do fazer, mas não compreende o real significado, não pensa na resposta que está dando.

Nível II – flutuação das respostas; aqui, a criança muda de convicção dependendo do contexto em que a questão foi inserida; é o caso, por exemplo, de dizer para a criança que um menininho da idade dela disse, outro dia, que a salsicha tem mais massa que a bolinha. A criança, que antes poderia ter dito o contrário, pode mudar de opinião.

Nível III – compreensão do problema; é a explicação lógica. Os erros não deixam de acontecer, é a forma de lidar com eles que muda, tornam-se internos do sujeito. É o caso, por exemplo de escrever uma frase com sentido duvidoso e, antes de expô-la para o grupo, reescrevê-la.

Esperamos que este estudo tenha sido útil, não para o fechamento ou para a conclusão de idéias, mas sim, para a abertura de novos paradigmas pessoais. Somente o estudo e a reflexão sobre a educação e suas vicissitudes pode levar a nós, educadores, a uma “tomada de consciência”.

BIBLIOGRAFIA:

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Dolle, J. M. & Bellano, D. (1995). Essas crianças que não aprendem. Petrópolis: Vozes.

Dolto, Françoise (1980). Prefácio. In: Mannoni, M. (1988). A Primeira entrevista em Psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

Faria. M. R. (1998). Introdução à psicanálise de crianças: o lugar dos pais. São Paulo: Hacker Editores.

Lajonquière, L. (1993). De Piaget à Freud: para repensar as aprendizagens. Petrópolis: Vozes.

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Macedo, L. (1994). Ensaios Construtivistas. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Piaget. J. (1975). A construção do real na criança. Rio de Janeiro: Zahar

_______. (1987). Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense.

Ramozzi-Chiarottino, Z. (1984). Em busca do sentido da obra de Jean Piaget. São Paulo: Ática.

Vinh-Bang.(1986). A Intervenção Psicopedagógica. (C. C. Scriptori e L. L. Zaia, trad.). In Archives de Psychologie. Vol. 58, n.º 225, pp. 123-135, Genève: Editions Mèdicine et Hygiènne.

Zaia. L. L. (1997). A interação entre pares na intervenção psicopedagógica. Anais do XVI Encontro Nacional de Professores do PROEPRE. (pp.148-158). Campinas: LPG/FE/UNICAMP.

Zaia, L. L. (2000). Algumas contribuições da Psicologia Genética à compreensão e superação das dificuldades para aprender.

Psicopedagogia On Line – disponível em: – acesso em: 19/09/01.

Fernando César Fante - Professor de História da Rede Escolar SESI – SP - Pós Graduando em Psicopedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Pardo – SP