terça-feira, 19 de junho de 2012

PROCESSOS DE APRENDIZAGEM E DESAFIOS DO EDUCADOR

João Beauclair
Sumário
Processos de aprendizagem e desafios do educador: perspectivas psicossocioeducativas
Resumo:Estudar os processos de aprendizagem, a partir de perspectivas psicossocioeducativas, é colocar-se em movimento para elaborar pontos de reflexões sobre os desafios educacionais do nosso tempo, onde novos paradigmas surgem e nos fazem buscar um posicionamento sobre aspectos da realidade e da complexidade presente em nosso cotidiano. Aqui proponho alguns temas e exercícios ao nosso sentipensar, com o intuito de exercemos nossas autorias de pensamento frente ao fazer educativo, compreendido como um fenômeno que alcança, na contemporaneidade, diferentes esferas do agir e do fazer humano, extrapolando os espaços e tempos tradicionais da educação formal, da educação escolar. Apontando para a necessidade da instauração de uma nova maneira de se pensar, agir e fazer a Educação no Novo Milênio, onde possamos estabelecer o aprender a amar como um quinto e efetivo-afetivo pilar educacional, este artigo é fruto de diferentes discussões, realizadas em momentos de formação continuada de educadores e psicopedagogos, ao mesmo tempo em que se tornou uma síntese da palestra “Processos de aprendizagem e desafios do educador”, proferida para o Instituto CENSUPEG na Cidade de Rio das Ostras, RJ, em setembro de 2011.
Palavras-chave: processos de aprendizagem, perspectivas psicossocioeducativas, desafios educacionais, novos paradigmas, pedagogia da amorosidade.
I - Perspectivas psicossocioeducativas: afinal, do que se trata?Perspectivas psicossocioeducativas, de acordo com o entendimento que tenho no momento presente, é um conjunto de percepções transdisciplinares e transpessoais que podemos elencar como uma necessidade institucional e pessoal de revermos práticas e condutas existenciais presentes em nosso viver e em nossas práticas de intervenção no real. Enquanto possibilidade de interpretação da realidade educacional é um modo de vincularmos visões diversificadas, em movimento de síntese, desejando construir um olhar mais aberto e plural para os fenômenos sociais, especificamente no que se refere às práticas educativas.
Um primeiro ponto de reflexão sobre o tema se justifica ao pensarmos que todo ser humano é sujeito ativo no processo de aprender, possuidor de singularidade e dotado de potencialidades, detentor de unicidade e capaz de modificar seu entorno e sua própria vida. Desde que bem mediados, todos podem aprender e isso se faz com o desejo de se apropriar do conhecimento com significado e sentido, ou seja, todos nós somos sujeitos aprendentes por que somos desejantes e isso é essencial para que a aprendizagem seja efetiva, afetiva e de fato, significativa.
Entre quem aprende e quem ensina existe a necessidade de se criar vínculos positivos capazes de nutrir o desejo de seguir aprendendo, visto que aprendizagem é processo perene no humano e, ao longo de nossas existências, muitos são os ciclos existenciais nos quais lidamos com diferentes necessidades de aprendizagens.
Assim, é importante destacar que todos nós devemos optar e fazer escolhas teóricas e práticas que se vinculem aos nossos modos de agir e fazer, de intervir na realidade. Num movimento de sentipensar  que se proponha a enfatizar o sujeito humano como um ser multidimensional, será a transdisciplinaridade que poderá fornecer subsídios nutridores de ações que possam construir novos modos de ser e estar no mundo, acolhendo a diversidade e colocando-nos em postura de busca permanente por referenciais que validem nossos percursos formativos e ampliem nossas perspectivas de intervenção.
A proposição transdisciplinar, como modo de operar cognitiva e afetivamente, remete a tridimensionalidade que podemos encontrar nos seres humanos: a dimensão física, a dimensão mental e a dimensão emocional. Com isso, é possível afirmar que somos frutos de nossas vivências nestas três dimensões, nem sempre lembradas no cotidiano escolar e nas práticas educativas.  A proposição de pensarmos um conjunto de estratégias de intervenção psicossocioeducativas remete a processos reflexivos distintos e, cabe aos agentes educativos perceber que todos nós possuímos um sistema de crenças e valores que necessitam ser revisitados e revistos .
Tal revisão exige uma postura de pesquisa permanente e busca de compreensão do nosso tempo presente, aliando a este mover-se a necessidade de desenvolvimento de nossas próprias potencialidades como sujeitos envolvidos com um agir e um fazer extremamente relacionado com a dinâmica e o funcionamento de grupos. 
Enquanto mediadores de processos de aprendizagem devemos, assim, nos importar em compreender que as ações pedagógicas e educativas acabam, sempre, por ter em suas configurações um conjunto de valores que determinam nossos modos de intervir, ou seja, nas intervenções que realizamos e nas interações que mediamos, colocamos em movimento certas maneiras de pensar, de sentir, sentipensar, analisar e perceber o ser humano e suas relações com o mundo e com os outros. Portanto, definir um projeto de vida pautado numa visão do ser humano que se deseja ver em processo contínuo de formação é vital para que tenhamos possibilidades de ver emergir modos novos de vida em nosso tempo presente e futuro.
II - Processos de aprendizagem e desafios do educador: uma proposição reflexiva.Com a Psicopedagogia, podemos repensar as relações e os processos de aprendizagem saudáveis compreendendo que é vital a criação de vínculos positivos entre o aprendente e o ensinante com o conhecimento.  Para tanto, importa que a criação do espaço educativo seja um lugar do desejo, e que em tal lugar o que se faça possua significado e sentido. Para os ensinantes um desafio reside em criar projetos de pertença, onde o sujeito aprendente possa elaborar exercícios de autoria de pensamento e perceba-se participante e integrante de sua própria história pessoal, de sua biografia. Ou seja, é fundamental que se tenha a noção de que como sujeitos, somos sujeitos que se constituem em relação com o aprender, com o conhecer e o saber.
Assim urge rever práticas pedagógicas que se distanciam deste movimento de fazer-se sujeito. O que acaba por configurar outro desafio: criar novas maneiras de perceber os diferentes parceiros das vivências educativas – os que aprendem, os que ensinam e as instituições, sabendo que novas oportunidades agregam recursos novos. Aqui cabe observar um pensar psicopedagógico: quem aprende ensina e quem ensina aprende .
Se as novas oportunidades significam tal agregação, o desafio que se segue reside em construir, criar e manter novas modalidades de desenvolvimento dos potenciais de aprendizagem dos sujeitos, estando atentos ao que pode ser novo e revisitar o famoso esquema assimilação, adaptação, equilibração e organização, hoje em dinâmico movimento por conta das mídias comunicacionais. Neste aspecto, propor-se a conhecer as possibilidades de interação entre a mediação e as novas tecnologias é atitude interessante e que deve ser perseguido como objetivo de formações continuadas de todos os que militam em educação e aprendizagem.
Em tais possibilidades de interação, acredito ser de fundamental importância atuar em prol do exercício da memória, construindo possibilidades de outros tipos de registro e resgatando memórias de tempos idos e, com isso, validando percursos e trajetórias, pois “resgatar a nossa memória significa resgatarmos a nós mesmos das armadilhas da negação e do esquecimento; significa estarmos reafirmando a nossa presença ativa na história (...) e na realidade universal dos seres humanos.” (Abdias do Nascimento).
Buscar novos referenciais cognitivos para ações e estratégias aprendentes é propor movimentos de observar com atenção e cuidado o entre, o através e o além daquilo que a nós se apresenta como o real das pessoas, dos fatos, dos fenômenos, dos objetos, das “coisas”. Assim desafiar a si mesmo, a agir em prol do desenvolvimento e da evolução da humanidade, desejando o atuar para ser Ser. Ser capaz de acreditar, crer, experienciar, correr riscos, exercitar as possibilidades da escolha e do exercício do livre arbítrio.
Compreender que aprendemos coisas, mas também devemos seguir aprendendo a exercer o poder da presença, da escuta, da escrita, do silêncio, das proatividades e, principalmente das relações em interação. Talvez isso nos seja possível ao aceitarmos os desafios de construir novos padrões mentais que se proponham ao desejo da emergência da sustentabilidade. Talvez isso seja possível se percebermos uma dialética existencial que nos posicione como indivíduos em solidão e em ações solitárias, que vivenciam o coletivo em ações solidárias e que desejam reconstruções e resgates de hábitos de pesquisa, escrita, questionamento, olhar e escuta frente ao fenômeno educativo e aos seus diferentes atores sociais. 
Para tanto, nos cabe elaborarmos reflexões sobre o que venha a ser partilha, recebimento, oferta e os referenciais da coerência, pertinência e eficácia. Será um bom desafio avaliar nossos percursos profissionais e pessoais, o nosso estar no aqui e no agora, o presente percebido como uma dádiva, com todas as suas explicações, implicações e aplicações, que de nós necessitam extremo aprofundamento. Assim, a busca é de consolidação de propostas de parcerias entre nossos posicionamentos como ensinantes e aprendentes: eu te revelo meu potencial para aprender, minhas possibilidades e potencialidades de atuar, de me atualizar em parceria contigo. Ambos, eu e você, podemos estabelecer uma relação saudável de crescimento mútuo, interligando o meu eu, os outros eus, o meio ambiente, o conhecimento de si, o autoconhecimento .
Com isso, poderemos seguir no aprender por si, vivificando evolução e estruturação, evolução e organização, evolução e reestruturação. Eu me organizo para poder organizar minha interação comigo mesmo, com os outros, com o meio ambiente, com o conhecimento de mim mesmo, com o autoconhecimento. Para aprender, acredito que como viventes seguimos estes percursos, dinâmica e simultaneamente:
1. Estruturação interna, o aprendente e sua história;
2. Estruturação interna, o aprendente e suas transformações;
3. Estruturação interna, o aprendente e seu crescimento;
4. Estruturação interna, o aprendente e seu desenvolvimento;
5. Estruturação interna, o aprendente e sua aprendizagem biográfica;
6. Estruturação interna, o aprendente e sua autonomia;
7. Estruturação interna, o aprendente e seu desejo;
8. Estruturação interna, o aprendente e sua autoria.
Tornar-se autor é partilhar uma voz que ao mesmo tempo pode ser tanto eco quanto silêncio. Pode ser também resultado de movimentações nossas frente ao propósito de facilitação à compreensão, à integração e à comunicação, num processo de ida e volta entre teoria e prática, entre o pensar e o repensar a prática, num exercício do dialogar e do explorar novos conceitos, objetivando o equilíbrio entre o ensinar e o aprender e a construção de sentidos para nossas práticas e mediações.
É importante perceber a necessidade de recriar estratégias onde seja possível observar a clarificação do objetivo a ser alcançado: para que um projeto educativo seja viável, os diferentes atores do fenômeno educativo precisam contribuir e, de algum modo, se favorecer/beneficiar, pois caso isso não aconteça, o engajamento pode não existir e sem engajamento, não há sucesso em nossas aprendizagens, muito menos em nossas tentativas de mediação .     
Para que o engajamento exista, é importante destacar que um projeto é interação entre parceiros e seu sucesso depende do modo como estabelecemos esta relação: aprender é interagir, ensinar é interação. Ensinar não é dar respostas prontas, manuais, receitas e modelos a serem seguidos: isso é outra coisa, isso é a negação do conhecimento do outro e oposição à vida, isso é morte em vida. Somos seres de incompletudes e o estar/sentir-se definitivamente pronto é fechar-se no que já existe e não se permitir a inovação para:
• Ver o que já foi visto de outro modo;
• Pensar o que não foi pensando;
• Falar o que ainda não foi dito;
• Fazer o que ainda não foi feito;
• Crer no que ainda é um devir.
Acreditar no que ainda estar por vir é solicitar a nós mesmos votos de confiança naquilo que podemos, de fato, fazer bem feito, com qualidade, com desempenho e boa vontade, sabendo que deste movimento depende nossas melhores maneiras de viver, de compartilhar, de seguir em frente.
III - Como tentativa de conclusão: afinal, o que fazer frente a estes tantos desafios?Como educadores, frente a estes tantos desafios, somos convocados a construirmos, juntos, um novo tempo onde resida em nós a alegria de seguir aprendendo, contextualizando, decodificando, selecionando, se auto-estruturando para viver o efêmero da própria vida e, ao assim escolher, tomar melhores decisões, criar adaptações inovadoras, trocar experiências e compreender nossas limitações sem esquecer nossas potencialidades para melhor integrarmos a Grande Teia da Vida, nutrindo-a com afeto, mansidão e amorosidade.
Venho acreditando que, para melhor nos integrarmos aos múltiplos fios que constituem a Teia da vida, é vital validar nossos percursos vivenciais, nosso saber-fazer, nossas existências, propondo-nos a descobrir novos modos de comunicar, ou seja, tornar comum o construir juntos. A meu ver, tal construção é possível no desenvolvimento de uma Pedagogia da Amorosidade que, em síntese, é apostar no entrar em reciprocidade consigo mesmo e com os outros, imaginando e criando novos engajamentos para a vida e a Educação neste novo milênio. Utopia? Sim, mas esta é importante para não desistirmos e, com tal desistência, ver vencer o imobilismo, a indiferença.

Para que serve a utopia?

Vale relembrar o escritor uruguaio Eduardo Galeano:
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Bibliografia
Referências:
Sentipensar: “o processo mediante o qual colocamos para trabalhar conjuntamente o pensamento e o sentimento (...), é a fusão de duas formas de interpretar a realidade, a partir da reflexão e do impacto emocional, até convergir num mesmo ato de conhecimento a ação de sentir e pensar” (Torre, 2001:01). TORRE, S. DE LA (2001). Sentipensar: estratégias para un aprendizaje creativo. Mimeo.
BEAUCLAIR, João. Intervenções psicossocioeducativas: introdução ao tema. Publicado no site português Psicologia.pt
http://www.psicologia.pt/artigos/ver_opiniao.php?codigo=AOP0280 , 2011.
BEAUCLAIR, João. Dinâmica de grupos. MOP Metodologia de Oficinas Psicossocioeducativas. WAK Editora: Rio de Janeiro, 2008.
BEAUCLAIR, João. Quem aprende, ensina. Quem ensina aprende. Contribuições reflexivas a partir da Psicopedagogia. Publicado no site português Psicologia.pt
http://www.psicologia.pt/artigos/textos/AOP0198.PDF, 2009.
BEAUCLAIR, João. A Pedagogia da Amorosidade: Inclusão e Diversidade no encontro do humano com o Humano. Revista Direcional Educador, Edição 72 - jan/11, São Paulo, SP, 2011.
BEAUCLAIR, João. Do fracasso escolar ao sucesso na aprendizagem: proposições psicopedagógicas. Editora WAK, Rio de Janeiro, 2008.
Fonte:
http://pensador.uol.com.br/frase/ODczMTQ/

Publicado em 10/05/2012 14:21:00
Currículo(s) do(s) autor(es)
João Beauclair - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Doutorando em Intervenção Psicossocioeducativa pela Universidade de Vigo,Campus de Ourense, Galícia Espanha. Palestrante e Conferencista Internacional. Autor de vários livros sobre Educação e Psicopedagogia; Professor convidado por diversas instituições ministrar cursos de Pós-graduação em Educação e Psicopedagogia em diferentes regiões do Brasil; Escritor, Arte-educador,  Psicopedagogo, Mestre em Educação.
homepage: http://www.profjoaobeauclair.net/
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