domingo, 6 de julho de 2008

DIVERSIDADE METODOLÓGICA NA EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS: BREVE REVISÃO HISTÓRICA

A imaginação, a criatividade e a capacidade de transformar matérias primas em utensílios são as características básicas que separam o ser humano das demais espécies vivas. Essas condições foram adquiridas ao longo de milhares de anos, quando o homem passou a socializar-se, seja vivendo em comunidades ou pelo simples fato de domesticar alguns animais. Em tempos de pré-história, pressupõe-se que o homem começou a fazer pinturas rupestres por acreditar que aquele desenho feito na parede da caverna traria a caça ao caçador. Um misto de superstição e necessidade impulsionou o homem primitivo à comunicação. Indubitavelmente, a utilização dos sentidos e as experiências vividas no cotidiano foram precípuas à formação do homo sapiens.Na antiguidade se utilizavam doces e guloseimas em forma de letras e números para o ensino das crianças. Platão e Aristóteles utilizavam-se do brinquedo na educação, numa tentativa de associar a idéia de estudo ao prazer. Neste período detectou-se a importância da educação sensorial e conseqüentemente se utilizou o jogo didático, quando anteriormente, a brincadeira era considerada como recreação ou mesmo como objeto de fuga da realidade “e a imagem social da infância não permitia a aceitação de um comportamento infantil, espontâneo, que pudesse significar algum valor em si” (Wajskop, 2005,19).Conhecida por seu obscurantismo intelectual, a idade média foi responsável pela estagnação científica na qual a sociedade européia permaneceu aproximadamente por um milênio. O domínio ideológico exercido pela Igreja Católica foi determinante para desacelerar o desenvolvimento das técnicas de ensino. Ao monopolizar a racionalidade, a Igreja pôde explorar com maior eficiência a população ignorante. Abominando o lazer e o prazer, transformou o aprendizado num processo cansativo e desinteressante.Chegando o Renascentismo científico cultural intelectual, houve um resgate das ideologias greco-latinas, entre elas o epicurismo: a busca do prazer. Era importante, então criar mecanismos que tornassem as técnicas de ensino mais objetivas e interessantes. A partir desse período, inúmeros estudiosos preocuparam-se com tais questões e os jogos e brincadeiras inserem-se nesse contexto. Porém, esta consciência pedagógica sobre a importância do espírito infantil (e conseqüentemente do lúdico) no processo ensino-aprendizagem, sofreu uma grave ruptura, como um ato desesperado de remissão de culpa, houve uma mudança para a paparicação; ato este condenável e objeto de discursos de vários militantes que instigando a sociedade a acreditar que a paparicação era para o seu próprio prazer e não para o afeto das crianças. Deu-se início então, a uma escola que se reorganizou para se adaptar a essa função disciplinar, instrutiva e essencialmente contra a paparicação: uma instituição com regras discriminatórias por séries a partir de faixas etárias e do grau de conteúdo do ensino e prioritariamente uma escola com divisões internas para o estudo e para o lazer, tornando-se algo similar à escola contemporânea.Apesar da função disciplinar do século XVII no século XVIII verificou-se uma tentativa de melhor estruturação da noção de infância. Rousseau, Pestalozzi e Froebel deram atenção especial à proteção da infância e ao modo que a criança deve viver essa fase da vida, pois acreditavam que a criança era portadora da verdade e concomitantemente a brincadeira infantil passou a ser respeitada. A influência de tais idéias permitiu que fossem criados brinquedos voltados à educação sensorial. Wasjskop (2205,20) afirma que “esta valorização, baseada em uma nova concepção idealista e protetora da infância, aparecia em propostas educativas dos sentidos, fazendo uso de brinquedos e centrada no divertimento”. Para Rousseau, a verdade dependia de uma “sinceridade do coração” e nada mais sincero que a criança, pois, na fase infantil o ser humano ainda não foi corrompido pela realidade social e cultural e só por isso detém o mérito de ser uma fase que deveria ser preservada. Quando se fala em modernidade, contudo, não são necessários muitos anos para tirar o homem do seu estado natural e inseri-lo na sociedade contemporânea. A fim de tornar tal tarefa, cada vez mais rápida e eficiente, estudiosos desenvolvem maneiras de transformar crianças – supostamente representando o estado de natureza humana – no ser racional que poderá tornar-se. Assim, creditando força ao pensamento do homem moderno que acreditava que, se existindo de fato e naturalmente a infância como uma fase especial da vida, havia necessidade de preservá-la, surge o brincar dirigido. Da observação analítico-comportamental de crianças na fase pré-escolar, os profissionais da área educacional se sentiam intrigados com o crescimento exploratório, interacional e criativo após as brincadeiras de faz-de-conta. A partir de então, desenvolveram-se cada vez mais jogos, brincadeiras e outras maneiras de captar o interesse infantil pelo conhecimento. Friedirich Froebel, Maria Montessori e Decroly foram os primeiros pedagogos da educação pré-escolar a romper com a educação verbal e tradicionalista de sua época. Propuseram uma educação sensorial, baseada na utilização de jogos e materiais didáticos, que deveria traduzir por si só a crença em uma educação natural dos instintos infantis. No movimento das Escolas Novas, que fazia oposição aos métodos tradicionais de ensino, que não respeitavam os mecanismos de evolução bem como a necessidade infantil, Maria Montessori se destacou por suas técnicas inovadoras, as quais são utilizadas ainda hoje não somente nas séries iniciais (três a seis anos para as quais originalmente foi criado), mas ampliaram-se indo desde o atendimento a mulheres grávidas (como orientador para o parto), como mediadoras nas dificuldades do Ensino Médio e até mesmo do Ensino Superior. “Pestalozzi deu às crianças a liberdade sem material; Froebel deu-lhes o material e Montessori deu-lhes a liberdade com material”.(Mafra, 1986,14). Para abrir a via que levasse em conta a brincadeira, foi preciso perceber a criança como portadora do valor da verdade, da criatividade; foi preciso, sobretudo, que se desenvolvesse uma confiança quase cega na natureza. A brincadeira é boa porque a natureza pura, representada pela criança, é boa. Tornar a brincadeira um suporte psicopedagógico é seguir a natureza. É por tudo isso que jogos educativos e brincadeiras que agucem os sentidos infantis proporcionam um aprendizado mais prazeroso. Crianças que brincam têm mais possibilidades de se tornarem jovens e adultos melhores, pois ajuda no desenvolvimento do raciocínio, ensina valores, alivia tensões, ensina a conviver a ter tolerância e o respeito às regras. É assim que os educadores deveriam despertar o interesse da criança sem que essa obrigação se tornasse demasiadamente cansativa para os pequenos.
BRINCAR E APRENDER
“Brincar e aprender são dois processos diferentes que se fazem em um mesmo espaço, descrito por Winnicott como espaço transicional, espaço da criatividade, espaço do jogar e eu acrescento espaço do aprender”. (Fernández, 2002, 101). Longe de ser apenas uma atividade natural da criança, a brincadeira é uma aprendizagem social. As brincadeiras dos adultos com as crianças pequenas são essenciais nessa aprendizagem, pois a brincadeira permite decidir, pensar, sentir emoções distintas, competir, cooperar, construir, experimentar, descobrir, aceitar limites, surpreender-se, pois, “o brincar é o principal meio de aprendizagem da criança... a criança gradualmente desenvolve conceitos de relacionamentos causais, o poder de discriminar, de fazer julgamentos, de analisar e sintetizar, de imaginar e formular”. (Des, apud Moyles, 2002, 37). Apesar de se saber que a criança não é um adulto que ainda não cresceu, que o importante não é ensinar, mas dar condições para que a aprendizagem aconteça e que hoje já existem pessoas preocupadas com os direitos das crianças, elas continuam desrespeitadas na sua condição de seres humanos em desenvolvimento. Todas as crianças precisam brincar, mas nem todas têm oportunidade. Algumas porque precisam trabalhar, outras porque não têm com o que brincar, outras porque precisam estudar e conseguir notas altas. Existem crianças socialmente prejudicadas, aquelas que não usufruem os benefícios de um lar e uma família organizada e muitas vezes sentem dificuldades em adaptar-se à escola. São infinitas as oportunidades de descobrir e criar que estão presentes nas brincadeiras infantis. Mas, o brincar das crianças é considerado apenas uma recreação sendo que a atividade pedagógica é realizada em um outro ambiente, menosprezando assim as aquisições que essa brincadeira pode oferecer. Opondo-se a este pensamento, “a brincadeira é uma forma de atividade social infantil cuja característica imaginativa e diversa do significado cotidiano da vida fornece uma ocasião educativa única para as crianças” (Wajskop, 2005, 30).Brincar tem características peculiares como o prazer, o desafio, limites, liberdade. Exige movimentos, flexibilidade e tem para a criança um caráter sério que não é feito de qualquer maneira, pois ela se empenha para realizar o seu melhor.Brincando ela aprende a viver e a formar conceitos, avançando dessa forma, etapas importantes para o seu crescimento. Brincando a criança adquire experiências que serão indispensáveis no seu dia-a-dia, pois provoca, exercita, desenvolve o funcionamento do pensamento explorando suas potencialidades.Maluf (2004, 33) pontua que “as crianças comunicam-se através do brincar e por meio dele tornam-se operativas”. A importância da brincadeira está intrinsecamente ligada ao seu valor operatório, pois, implica em assimilação de esquemas.Pela necessidade que a criança tem de brincar é preciso criar sempre oportunidades em casa e na comunidade para que ela possa brincar livremente. Nenhuma criança brinca só para passar o tempo, brincar é sua linguagem secreta.Além de deixar qualquer criança feliz, o brincar desenvolve os músculos, a mente, a sociabilidade, a coordenação motora e auxilia-a na superação de suas dificuldades. “Brincar é muito importante, pois enquanto estimula o desenvolvimento intelectual da criança, também ensina, sem que ela perceba, os hábitos necessários ao seu crescimento” (BETTELHEIM, apud MALUF, 2003, p.19).Existem dois tipos de brincar: o brincar livre e o brincar dirigido. O brincar livre, conceitua-se pelo lúdico informal, geralmente no espaço familiar: de passeios, de comunicação, de informação, de descobertas, de assistir televisão, enfim, brincadeiras que, apesar de serem de iniciativa da criança, sem pretensões educativas, assumem características de aprendizagens consideráveis para ela, que se utilizando de conhecimentos pré-adquiridos, possibilitam a apreensão de novos, para apropriar-se de seu entorno, desenvolvendo sua cultura lúdica.Agindo de forma lúdica, há possibilidade da criança assimilar a cultura do seu grupo social e interpretar os modos de vida adultos de forma participativa e essa cultura lúdica irá constituir uma bagagem cultural para a criança e se incorporar de modo dinâmico a uma cultura mais ampla.É preciso lembrar que a cultura lúdica que evolui com a criança é em parte, determinada por suas capacidades psicológicas, as quais podem permitir ou impossibilitar algumas ações ou representações, pois o pensamento da criança evolui a partir de suas ações, por isso as brincadeiras são importantes para o desenvolvimento do pensamento infantil e “quanto maior for à imaginação das crianças, maiores serão suas chances de ajustamento ao mundo ao seu redor”.(CUNHA, 2001, p.23).No que diz respeito ao brincar dirigido, ele é entendido à luz de algumas teorias sobre a aprendizagem, onde a atividade lúdica é direcionada para fins de aprendizagem e a criança vive experiências em níveis diferentes de complexidade e envolve assim através do brincar, suas capacidades cognitivas, ou seja, o brincar dirigido como um procedimento que pode compor o processo diagnóstico do psicopedagogo. Portanto para dar mais sentido às brincadeiras, deve-se propor atividades que exercitem sua imaginação, criatividade, equilíbrio, agilidade de movimentos e raciocínio. Conseqüentemente, que o brincar livre e o brincar dirigido, desenvolvem-se em uma inter-relação positiva. No brincar livre, a criança utiliza sua cultura lúdica aliada ao que aprendeu no brincar dirigido. Por sua vez, será observado no brincar dirigido as experiências adquiridas pelo brincar livre com outras crianças. Assim sendo, as crianças precisam de tempo, espaço, companhia e material para brincar. Desta maneira a escola pode e deve reunir experiências para que aprendam e assimilem nesse processo de descobertas que é fundamental para o seu desenvolvimento.Na área da educação, a preocupação com o lúdico se manifesta apenas pela qualidade dos brinquedos disponíveis no acervo, sem se levar em conta os significados que esses objetos carregam. Não se trata de intervir psicopedagogicamente em toda a brincadeira, mas de compreender a especificidade e importância da intervenção e prevenção que pode existir na brincadeira, atentando para o fato de que hoje já não se pode mais educar apenas com lápis, papel, mesa e cadeiras,O educador pode, portanto, construir um ambiente que estimule a brincadeira em função dos resultados desejados. Não se tem certeza de que a criança vá agir, com esse material, como desejaríamos, mas aumentamos, assim as chances de que ela o faça; num universo sem certeza, só podemos trabalhar com probabilidades. (Brougère, 2000,105).
A brincadeira com intenção psicopedagógica é aquela organizada de maneira que os participantes sejam ajudados a desenvolver confiança em si mesmo, em suas capacidades e a ser empático com os outros, ou seja, um ser pensante, com possibilidades de expansão no seu desenvolvimento pleno.